Uber: “Uma concorrência desleal, ilegal e imoral

“Natalício Bezerra Silva, presidente do Sindicato dos Taxistas Autônomos de São Paulo, escreve por que o Uber não deve ser liberado

NATALÍCIO BEZERRA SILVA

Engodo. A palavra resume bem o falso debate que está sendo proposto com relação à entrada ilegal do aplicativo Uber no país. Há uma infinidade de questões – de ordem judicial, de legislação, de transporte público, de responsabilidade fiscal, de segurança e dentre tantas outras, e a empresa simplesmente está se colocando à margem da legalidade e fugindo do debate em todas elas.

A situação é tão absurda que em cada país, ou de acordo com os processos judiciais que a empresa enfrenta – e são muitos -, ela se apresenta com uma denominação – ora como empresa de tecnologia, ora de economia compartilhada, ora de aplicativo de caronas (ainda que remunerada), ou em último caso, eles finalmente se assumem como empresa clandestina de táxis, como aconteceu recentemente no Canadá. São esses tipos de contradições que deveriam nos assustar. Ou ainda, será mesmo que as proibições, sanções e banimentos do aplicativo em vários países do mundo, por diferentes cortes e julgamentos da Justiça, também não significam nada nessa discussão em solo brasileiro?

Isso sem falar nas responsabilidades fiscais, na evasão de divisas, na concorrência desleal e na afronta às leis vigentes em nosso país. Desregulada e fora da lei, quem determinará seus preços e seu padrão de qualidade, caso ela consiga ser dominante no mercado, como é sua presunçosa pretensão? E ainda, a quem o consumidor recorrerá quando preciso? Já o serviço de táxi é credenciado, regulamentado, fiscalizado e legalizado. Há uma série de exigências profissionais que devemos cumprir junto aos órgãos reguladores da administração pública. Além de contribuir para toda uma cadeia produtiva e socioeconômica da cidade. 

Se a questão aqui é discutir a melhoria do serviço de táxi para seus usuários, saibam que nós estamos totalmente abertos a isso. O aprimoramento profissional é algo que deve nortear constantemente toda e qualquer categoria que se preze. E não fugiremos desse debate. Pelo contrário, temos total interesse que ele seja colocado em discussão. Até porque nós também temos nossas pautas de melhorias junto ao poder público.

Startups que se apresentam como empresas de tecnologia que ligam motoristas particulares a clientes, mas na prática qual foi a grande inovação que fizeram? Nenhuma. Isso o serviço de táxi já oferece através de aplicativos de corridas. Transporte executivo de luxo? Isso o serviço de táxi também já oferece. E até mesmo com carros blindados e todo conforto e comodidade que uma corrida deve oferecer ao seu cliente.

O serviço e a profissão de taxista são reconhecidos por leis federais e municipais Só em São Paulo, são mais de 30 mil trabalhadores que realizam, por dia, cerca de 400 mil viagens transportando mais de meio milhão de passageiros. Reconhecidamente, o serviço de táxi paulistano é tido como o melhor do país e serve de exemplo para outras capitais, inclusive mundo afora. E nós estamos tratando do serviço de quase 40 mil motoristas, pais e mães de famílias que investiram décadas em aprimoramento profissional.

A atividade do transporte é uma questão de interesse público. E a proposta do Uber vai justamente na contramão desta premissa. Desregulamentar o setor implicaria em uma série de questões que, futuramente, podem trazer consequências trágicas para a cidade e para milhares de trabalhadores. Temos de ter muita cautela com a direção da discussão que está sendo gerada. Afinal, o ovo da serpente, se chocado, trará problemas incomensuráveis e abrirá brechas para mudanças semelhantes em diversos segmentos profissionais.  Espero que esta reflexão ajude a jogar luz sobre um debate cercado por pano de fundo e encenações teatrais. Mas que, no fundo, escondem questões muito mais importantes em jogo

Publicado por El Globo.